Porto Alegre: Uma cidade de Egos Estriônicos. 


Sempre que penso em POA (assim mesmo, como gostamos de abreviar), me veem as músicas de meus contemporâneos. 

Giba Giba, por exemplo, canta: “uma cidade, um país, lugarejo...” quando a Elaine canta: “Há muito tempo que ando, nas ruas de um Porto não muito alegre...” e o Nei: “já vejo as casas ocupadas, as portas desenhadas no vergonhoso muro da Mauá...”. 

Tem também aqueles que a gente lembra e não quer lembrar, tipo Kleiton e K: Deu prá ti, baixo astral, vou para POA tchau.” e aquela outra que inferniza os ouvidos com a musiquinha que vendeu para o Zaffari. A esses nunca dei muito crédito, pois eles não viveram de verdade POA, a não como polo para levar uma grana e também nunca tiveram a qualidade de falar muitas coisas comoventes ou reais que poderíamos chamar de arte, e falando em arte, fazia muito tempo que não caminhava livremente e com tempo para curtir a arte em POA e, nessa semana, fui dar uma geral nos eventos e paisagens que fizeram minha infância e minha história. 

Comecei pela Bienal Internacional do Mercosul que só no nome já coloca uma pompa que nessa edição não foi vista (confesso que assisti a umas três Bienais e já vi bem melhores). Muitos trabalhos reflexivos-analíticos-científicos-explanatórios e pensei no Iberê, que dizia que uma obra de arte visual não é um livro, por onde se passa uma história e acrescento que também não é remédio que precisa de bula. Uma obra deveria movimentar internamente mesmo o que não sei, incomodar a ponto de me colocar em xeque comigo mesmo, mas acredito que deve ter gente que se emocione com aquilo que vi, com as explicações medíocres dos monitores (e sem eles os jovens que visitam a Bienal nunca mais entrariam num museu pois não entenderiam nada, já que sentir...), mas, com algumas exceções de trabalhos que valem a pena, tudo pareceu tão dejà vu e frio que me deu vontade de sair bem rápido. Até mesmo a arte em vídeo, que me fascina, me remeteu aos trabalhos do Warhol, que filmava horas ininterruptas de alguém dormindo ou em outra situação sem movimento. E lá vão 8 minutos de água batendo na borda do rio, 10 minutos de céu e nuvens , lindo, mas lá nos anos 60! 
Passei então para a Feira do Livro e me pareceu que, em 10 anos, POA parou. 
Aumentou um pouco, claro, venderam-se mais espaços institucionais e esses estão maiores tendo, inclusive, um quiosque da Devassa, bem no meio da Feira, quase ao lado de uma Banca da Assembleia, onde distribuíam gratuitamente (bela ação), folhetos sobre drogas, inclusive o álcool. Esse deve ser o tipo de prevenção que está sendo feito numa cidade que teve o maior aumento de uso de álcool nos últimos 10 anos segundo dados do SENAD/INPAD, incluindo jovens universitários e adolescentes. Tanto tempo de planejamento, tanta grana investida e os patrocínios completamente desajustados. 

Caminhei até o Gasômetro e a partir de então comecei a desprezar mesmo minha terra e meu berço. Um desprezo de família, uma tristeza de quem foi e voltou e viu a rápida transformação do mundo. Um elefante branco, na beira do lindo e sujo Guaíba, que não dá nenhuma vontade de entrar e, quando se entra, dá vontade de sair correndo, de dizer ao Prefeito: Que merda estás fazendo aí? Um equipamento cultural que deveria acolher, aconchegar, receber, movimentar e lá dentro parece-me que estamos prontos para começar a trabalhar, verdadeiramente, numa Usina que já foi, não é mais e esqueceram-se disso. Aí não tem como deixar de comparar. Por que não se espelhar em exemplos como o SESC Pompéia em SP ou o CCBB no Rio? Espaços vivos, ardentes, funcionais. 

Saí para dar uma volta na beira do Guaíba, já louco para voltar pro meio do mato e aí sim, veio o susto maior, a coroação desse passeio pela cidade dos egos quando vi a homenagem que fizeram para minha amada, inigualável e preciosa Elis Regina. Fiquei pensando onde foi feito o conchavo para aquele senhor que se diz escultor (que certamente nunca lembrarei o nome) ter convencido o poder público a fazer aquilo com nossa maior expressão da MPB. O cara não tem a menor ideia de proporção, técnica, refinamento estético, enfim, fez uma Elis anã, deformada facialmente, com um cabeção e com traços de defunta. Uma tristeza, um horror, uma vergonha. 

O que mais me incomoda nisso tudo é o fato de depois de tantos anos em que estive fora, tudo está a mesma coisa, nada andou, os gaúchos ainda acham o por do sol do Guaíba o mais lindo do mundo, a ponte com elevação mecânica a maior do mundo, os estádios os melhores do Brasil, a cidade mais rica, tudo aqui, enfim, é melhor e maior, num profundo processo esquizofrênico de identidade e numa baixa estima que dá medo. 

Muita gente vai me odiar por escrever isso, sem problemas. 
Sou gaúcho, não hipócrita. Leio pesquisas e não dá para esquecer que temos um dos maiores índices de violência do Brasil, que a pobreza está demasiada, que nada funciona como deveria, que tudo tem de ser pensado e negociado exaustivamente, que até um metrô miniatura leva décadas para ser construído. Pena que poucos viveram só a cidade. Não tiveram a chance de conhecer o por do sol do Saara, do Montblanc, nos Alpes, do Mediterrâneo, a ponte de Millau, o metrô de Paris, Londres, São Paulo e tantos outros exemplos de construção que beneficiaram o homem. Isso não significa nada em termos geográficos ou de status, mas nos torna menos arrogantes e mais ágeis em pensar o mundo como um processo evolutivo e como um todo, em que continuamos isolados como um país que não existe e que, se existisse, estaria falido: o Rio Grande do Sul. 

Sou gaúcho, mas não gosto mais de minha terra. 
Falo mal, mas não deixo ninguém de fora falar. Coisas de família... Menos ego. 
O que tem de ser feito, tem de ser feito, mas tem de ser real. 
Vamos parar de mentir?