Carta de um Doutor ao Sr. Segadas Vianna,
Prezado,
Realmente possuímos olhares muito diferente em relação à vida.
Onde o sr enxerga mortos vivos e dejetos humanos, eu consigo ver cristais aos quais o senhor além de renegar ainda faz troça.
Sempre pensei no ser humano assim: como cristais, refletindo a vida, como ela realmente é, em todas as nuances possíveis. Quem disse que a vida é bela? É sim, mas não é só isso...e o meu belo e o seu certamente são diferentes.
Durante quase trinta anos estive atrás da imagem, do som, da força da vida e achei que poderia mudar o mundo através da minha arte. Fui fundo nessa busca interna e externa, tendo viajado por quase todo Brasil mostrando meu trabalho e morando em diversos países, sempre em busca de tentar transformar algo no coração dos homens.
Devo ter conseguido alguns resultados (não tenho levantamento disso), mas todos me foram absolutamente insatisfatórios.
Quando voltei de um longo tempo na França, constatei que não conseguia mais lidar com pessoas como o Sr.
Provavelmente por não poder lidar comigo mesmo. Por razões que não vem ao caso, acabei em total abandono e passei um tempo no Rio de Janeiro em Situação de Rua. Foi aí então que começou o meu doutorado.
Hoje posso dizer-lhe que sou doutor em quase nada, mas conheço o ser humano ¨comme mon poche".
Apesar de nunca ter usado crack, vi muitos amigos sofrerem e morrerem por ele. Infelizmente um pedaço da vida nada agradável e jamais faria apologia à essa liberdade mentirosa que buscam os usuários de crack.
Meus amigos que hoje estão lutando contra a Internação Compulsória, ao contrário do que o sr fala, frequentam sim a cracolândia e ajudam, no que podem, de forma direta essa pessoas, assim como eu o faço.
O que queremos são clínicas especializadas, sim senhor, pois pelo conhecimento, sabemos que de outra forma não teremos sucesso, pois a doença "dependência química", CID 14 e outros, segundo a OMS, exige que seja assim para que haja um mínimo de eficiência, por se tratar de uma doença de alta complexidade, atingindo o ser humano em todas as áreas: bio-psico-sócio-espiritual.
Somos cristais, somos humanos, diferentes, coloridos, com opções, oportunidades e condições de enfrentamento diferentes.
A internação compulsória poderá sim ser uma bela opção, à medida que deixarmos de lado a ignorância e fomentarmos mais pesquisas na área, assim como, equiparmos humana e fisicamente o estado para que a ação não seja mais de segurança e higienização, como tem sido até então.
Por fim, acho sim que é obrigação, de qualquer cidadão, informar-se para onde estão sendo levadas essas pessoas recolhidas. Não sei o que acontece hoje em São Paulo, mas conheço os centros de internação no Rio e esses condizem bem com o que o senhor imagina ser o espaço para essas pessoas: um cemitério, já que parecem mortos vivos. Não seria mais eficiente então mata-los realmente? E o fazendo, não deveríamos acabar com as famílias que foram em muitos casos responsáveis por isso, afinal todos devem ter mamãe e papai, não? E o estado que joga milhares na rua a cada enchente, a cada novo plano econômico milagroso, não deveria ser exterminado?
Obrigado por ter proporcionado essa reflexão.

http://www.votebrasil.com/coluna/segadas-vianna/a-idiotia-atuando-contra-o-combate-ao-crack-em-sp