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Há muitas décadas discutimos o que fazer em relação à pessoas em situação de rua que crescem em número em todo país.
O assunto é complexo, constrangedor e eticamente delicado.
Complexo por que as razões que levam pessoas para a rua passam pelo desnível político-social, por condições inesperadas (enchentes, terremotos e tantos acidentes que tem ocorrido), assim como pelo crescimento dos usuários de drogas, incluindo a mais perigosa (e aceitável) delas: o álcool. Constrangedor por que não queremos ver isso em nossas vidas cotidianas, e fica mesmo difícil assumir que isso incomoda. Eticamente delicado por que não queremos assumir esse câncer, que foi gerado por nós mesmos, como sociedade cruel, competitiva e não aberta à fracos. Delicada a questão que nos força questionar o que estamos fazendo com o mundo ao nosso redor e até que ponto somos responsáveis pelo todo, já que fazemos parte dele.
Muitas ações desesperadas, de resolver a questão, tem sido tomadas por governos cegos de conhecimento histórico e mais ainda de conhecimento espiritual, que se houvesse, esclareceria muitas questões no que diz respeito à atenção ao que é humano.
Dentre as últimas novidades, temos agora a internação compulsória, que muito mais que uma tentativa de sanar problemas de saúde da população, é sim uma medida de higienização das ruas, uma tentativa de colocar o lixo para baixo do tapete, culpando e midiatizando o crack como o maior vilão destes tempos, tirando responsabilidades de quem as tem e desviando o olhar do que nos incomoda e do que não compreendemos. Tornamo-nos assim tão doentes quanto os que queremos pretensamente tratar, pois começamos demonstrando possuir uma das principais característica da dependência química: a negação.
Esconder antes de conviver, resgatar antes de dialogar, essa tem sido a postura das políticas de exclusão que se disfarçam sobre pele de cordeiro.
Precisamos continuar discutindo o que faremos com nosso lixo sim, isso é saudável, mas me parece que não queremos realmente enxergar soluções possíveis, que se mostram, e nossa atenção intelectual refinada não consegue digerir.
Conheci muito bem e tive a oportunidade de fazer um estágio na ASAB – Associação Solidários Amigos de Betânia, que funciona há 13 anos na Freguesia de Jacarepaguá no Rio de Janeiro e hoje também em mais dois endereços. Essa casa faz o que o governo com suas políticas impensadas não consegue, e com muito menos recursos.
Em Betânia, da Irmã Elci, como é conhecida, a população em situação de rua, na maior parte composta por dependentes químicos, é acolhida por um processo de atenção integral, que atua em todas as áreas atingidas pelo processo destrutivo da doença. Por nove meses, é realizado um trabalho que visa, por final, a total reinserção social. Lá existe atendimento médico, odontológico, psicológico, orientação social para retomada da cidadania, aulas de yoga, música, teatro, informática e sobre tudo, o mais importante: orientação espiritual e retomada da fé, que num processo de morte à que leva às drogas, na maior parte das vezes, se vê esmigalhada.
Essa atitude de Betânia de ouvir, respeitar individualidades e compreender o ser humano com a complexidade que lhe é peculiar, começou pela atitude de uma só cidadã: Irmã Maria Elci Zerma.
Betânia vive de doações, de reciclar os lixos da sociedade, de amor.
Irmã Elci conseguiu, do nada, reciclar o lixo social que tanto queremos jogar de escanteio através do amor que tem pelo ser humano.
Hoje a casa recupera e reinsere um número impensável de pessoas, números que surpreendem até mesmo as Comunidades Terapêuticas e Clínicas espalhadas pelo país.
Mágica? Conhecimento? Técnica?
Pode ser que tudo isso junto, mas o principal ingrediente é mesmo ouvir, ouvir com amor, enxergar verdadeiramente o humano, o divino no rosto de cada acolhido, e buscar no próprio o que internamente está escondido.
Será que não temos todos que buscar isso, o que se esconde de humano em nós?
Certamente muitas iniciativas como essa se espalham pelo país e precisam muito mais que nossa atenção especial e reconhecimento: precisam de dinheiro para continuar um trabalho que já existe, que é eficiente e que o governo desconhece, passando por cima como um trator, atropelando processos e querendo levar pessoas “na marra” a se esconder atrás de uma máquina cega e falida, que não tem a menor condição de lidar com a delicadeza.
Não seria inteligente para nossos governos investirem nessas Associações que já estão aí, ao invés de continuar em tentativas incompetentes de tratar o que não tem habilidade para faze-lo?
Basta enxergar!