Daqui do meu cantinho interno, teclando como quem bate bolo, ainda sinto o calor propagando pela sala as lembranças permeadas de infância, vó, sítio, minha mãe de vermelho e tudo o que um cheirinho de pão saindo do forno proporciona.
E ainda mais quando o pão tem o ritmo da mão da gente, como fica bom o cheiro!
Tem que pegar todos ingredientes e juntá-los com delicadeza e parcimônia, para que uma coisa não fique à mercê de outra nem a sobreponha de forma indevida.
É mais ou menos assim como as emoções do dia a dia, passa-se por elas, filtra-se, investiga-se e se usa só a quantidade devida.
Depois precisa trabalho. Tem de sovar bem, suar a testa, cansar o braço, envolver-se até a ponta do nariz de farinha e juntar tudo muito, mas muito bem, obtendo uma massa homogênea e sem caroços, lisinha, bonita.
É mais ou menos como eliminar rancores, mágoas, mal-amor.
Aí começa o trabalho de paciência até que tudo se assente, descanse e cresça!
Voilà!
Uma vez que tudo está desenvolvido, liberto, vivo, pronto para a maturidade, enfornar.
Passado algum tempo, e este é medido pela intensidade vivida, o resultado pode ser maravilhoso ou pode abatumar, queimar, ficar insoso, desmaiado, mole, duro, bom por fora e uma M por dentro, bom por dentro e uma M por fora.
É, fazer pão é assim... como a vida.
Nem todo dia funciona, nem todo dia está tudo bem, nem todo dia se cresce, nem todo dia o calor se faz.
Mas, uma certeza: Sempre fica tudo muito bom, mesmo que diferente do que se espera.